quarta-feira, 8 de outubro de 2008

Otango / Atanga


Otango

Fui ver. Lugar na Tribuna, vista excelente para o palco e para o usufruto do magnífico espectáculo que a crítica se fartou de aplaudir! Fui ver e gostei.

Eh pá, é assim quase que impossível de se ficar indiferente ao Tango – a música, as letras das canções, as coreografias intrincadas, os bailarinos. É quase como que ter uma vontade de levantar da cadeira e dançar, e fazer todos os jogos de sedução que todo o tango impele a fazer, de malandrar nos braços de um canalha qualquer que nos conduz naquela dança maluca! Dá vontade de fazermos parte de tudo aquilo, de todo aquele ambiente de bordel e de bares de rua, de fazermos parte de uma sociedade que por muito decadente e corrupta tem sempre o “estilo” de encarar as coisas bailando.

É… eu fui ver e vim de lá, assim, como direi?, com vontade de arranjar um malandro mais malandro que eu e que me leve de volta aos bailes e às milongas… É nestas alturas que eu sinto falta dos meus tangos…

O espectáculo é digno! A começar pelos músicos em palco (um piano, um contrabaixo, um bandoneon e dois violinos), passando pelos cantores e enfim, pelos bailarinos. Qualidade! Foram arrebatadores! Muuuuuuiiiiiiiitttttttttooooooooooo bons!

É… eu fui ver e gostei.


Atanga

Ora, há sempre um verso da medalha, um mas…

A verdade é esta, sou tecnicista! Eu vou ver um espectáculo e reparo nas coisas que as outras pessoas não reparam. Chamem-lhe “defeito de profissão”. Também poderão dizer que é a Teoria do Crítico, ou seja, Crítico é todo aquele profissional frustrado que se limita a dizer mal daquilo que nunca há-de fazer (nem bem, nem mal…). Também pode ser, não me importo. Mas… há coisas num espectáculo que corre mundo há imenso tempo (não faço ideia quanto), com os melhores profissionais que alguma companhia pode ter, que enche salas, que a crítica aclama, que leva a encher o Coliseu num terça-feira à noite, que não podem acontecer. Eh pá e tudo isto a um preço que nos deixa as economias arrasadas para o resto do mês… Não é brincadeira! Aquela gente, como eu, pagou uma pipa de massa não para ver luzes a acenderem quando não deviam, a não acenderem quando deviam, técnicos de palco “em cena” quando não deviam, um cenário que de tão estupidamente simples se tornou estupidamente complicado e eu estava sempre a ver quando é que aquilo caía na cabeça dos músicos…

Feedback? Feedback num espectáculo daqueles? Mas o que é isto? Até pareciam as peças de Natal que eu fazia quando pertencia a um grupo de teatro amador! Mas eu era uma amadora! Aqueles malandros são profissionais!!! (e ao preço dos bilhetes, devem cobrar-se caro!) Mas há mais! Um intervalo de meia hora!? Meia hora??? Para quê? Se ainda me dissessem que era para ver o que se passava com os microfones eu até aceitava, mas não deve ter sido para isso, porque o feedback continuou na segunda parte… Ah!… e microfones que não eram ligados quando os cantores começavam a cantar. Ouvia-se assim o cantor lá noooo fuuuunnnnddddooooooo. É bem! Uma pipa de massa!

E o público… bem comportado, porque não houve sinal de chamada no intervalo e as pessoas começaram a sentar-se sem que as chamassem. Devem ter olhado para o relógio, coisa que a produção do espectáculo não fez, durante o intervalo… Sim, o público, esse, o mesmo que começou a abandonar cadeiras no intervalo – pudera! Devem ter pensado que o espectáculo devia ter terminado… E no fim, quando a companhia vem fazer uma primeira vénia, era ver a malta a sair em debandada! Por favor!!! Mas onde estamos!? Ah sim, mais uma, quando o pano fechou, sim o espectáculo já tinha terminado… mesmo… as luzes da sala mantiveram-se apagadas! Ora pois, a malta tem é que ficar ali a gramar o finzinho do espectáculo!

Eh pá, não me lixem! Já tenho pago menos e visto espectáculos com melhor produção! Fomos levados pelo tango e a produção deu-nos mas foi uma grande tanga e pregaram-nos com uma grande milonga, foi o que foi! Malandros, todos eles! Acho que foi a primeira vez que ouvi uma pateada no Coliseu mas de desagrado, durante o imeeeenso intervalo. É pena… leva-me a pensar se valerá a pena gastar mais dinheiro (muito dinheiro, diga-se, uma pipa de massa!!!!) para ver seja o que for…

Não me venham dizer que sou uma “tangueira” frustrada porque já não danço há anos, não me venham dizer que sou uma produtora de espectáculos frustrada, porque só o fiz em estágio e no grupo amador, não me venham dizer que sou uma técnica de som e luz frustrada, ou uma cenógrafa, ou uma qualquer-coisa-que-se-critique-porque-eu-acho-que-está-mal… até posso ser tudo isso, como não ser nada disso, mas a verdade é que para malandra basto eu! E embora eu tivesse gostado do espectáculo (que gostei!) não posso admitir que paguei a uma equipa de produção fraquinha…

Malandros e tangueiros do meu país, digo-vos, sinceramente, venham mais! Mas com mais qualidade nos pormenores, se possível…

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