quarta-feira, 13 de maio de 2009

Ode à preguiça

Controle remoto. Control C/Control V. Centrífuga Juicer. Microônibus em Ouro Preto. Comandos Fwd e Cco dos e-mails. Microondas. Corretor ortográfico... Esses e tantos outros itens que atestam o estado letárgico para o qual está caminhando a humanidade. Ou seria engatinhando? Mas falta, ainda, inventarem o rolo de papel higiênico que anda sozinho pro banheiro, assim que o último centímetro do rolo anterior acaba. Como falta, também, nascer o cachorro adestrado que leva comida pra gente até o sofá e, depois, volta com a vasilha suja para a cozinha. E ainda lava! Vidro elétrico do carro. O “cê” do “Cê viu?” Corretivo nas palavras, frases e até em parágrafos inteiros. Delivery de sushi. Portão eletrônico. A sopa e o café instantâneos... Esses e tantos outros artifícios que apontam sintomas da preguicites agudan que assola a sociedade ocidental contemporânea. Mas falta, ainda, criarem janelas que se fecham sozinhas ao primeiro sinal do pôr-do-sol. E, também, o gato de estimação treinado para ir correndo ao terreiro buscar as roupas que estão secando no varal, após a primeira gota de chuva. O caixa eletrônico e seu primo nada distante - o cartão de crédito. O Google e a Wikipedia. O câmbio automático e a direção hidráulica. A compra de supermercado pela internet... Essas e tantas outras comodidades elaboradas pelas mentes criativas de uma espécie extremamente preguiçosa. Mas falta ainda, criar a roupa que sai do nosso corpo sozinha e vai correndo em direção à máquina de lavar. Bem como o carro que estaciona de ré, em uma ladeira de Ouro Preto, entre dois carros, sozinho. Ou a ode maior à preguiça humana: uma banana geneticamente modificada para se descascar sozinha.


Retirado do Jornal O Liberal. Está em português do brasil, mas o que interessa é que está tudo lá... Malandros, mais um hino à malandrice!

terça-feira, 5 de maio de 2009

Adeus Vasco Granja


Vasco Granja morreu esta madrugada em Cascais


Vasco Granja, divulgador de banda desenhada e do cinema de animação em Portugal, morreu esta madrugada em Cascais. Tinha 83 anos.


Autodidacta e com múltiplos interesses culturais ao longo da sua vida, Vasco Granja nasceu em Campo de Ourique (Lisboa) a 10 de Julho de 1925. Começou a trabalhar, ainda muito novo, nos antigos Grandes Armazéns do Chiado, e depois ao balcão da Tabacaria Travassos, na baixa lisboeta, que consideraria, anos mais tarde, a sua universidade. O seu interesse pelo cinema surge na adolescência e aos 16 anos chegaria a ser admitido como segundo assistente de fotografia no filme "A Noiva do Brasli", de Santos Neves.

No início da década de 50 envolve-se no movimento cineclubista, tendo desempenhado funções directivas no Cine-Clube Imagem. Granja foi preso pela primeira vez pela polícia política do Estado Novo em Novembro de 1954, quando militava clandestinamente no PCP. Esteve preso sem julgamento seis meses e quando foi libertado voltou às suas actividades cineclubísticas e à divulgação cultural na imprensa. Datam de 1958 os seus primeiros artigos sobre o cinema de animação, nomeadamente na sequência da descoberta dos filmes experimentais do canadiano Norman McLaren.

No início da década de 60 arranja trabalho na Livraria Bertrand, onde se manteve até à reforma. É preso de novo em 1963, julgado e condenado a 18 meses de prisão. Quando foi libertado, em 1965, Vasco Granja retoma a sua actividade cultural, com artigos nos "media" sobre cinema e literatura. O seu nome é habitualmente associado à divulgação da banda desenhada em Portugal. O termo "banda desenhada" é, aliás, utilizado pela primeira vez por Granja num artigo publicado pelo "Diário Popular" em 19 de Novembro de 1966.

Integra a equipa fundadora da revista francesa de crítica e ensaio de banda desenhada "Phénix", nos anos 60 e participa regularmente no Salone Internazionale dei Comics, em Lucca (Itália), o mais importante encontro do género nos anos 70.

Em Portugal, a sua actividade de divulgação da banda desenhada intensifica-se a partir do aparecimento da edição portuguesa da revista "Tintin", em Junho de 1968, onde escrevia e traduzia artigo, além de ter a responsabilidade da secção de cartas aos leitores. Foi director da segunda série da revista "Spirou" (edição portuguesa) e coordenador da edição de banda desenhada da Bertrand. Animou o "Quadrinhos", um dos primeiros fanzines surgidos em Portugal, em 1972. Esteve ligado à fundação da primeira livraria especializada de BD em Lisboa, O Mundo da Banda Desenhada, em 1978.

Em 1974 e 1975 integra o júri do Salão Internacional de BD de Angoulême. Depois de 25 de Abril de 1974, Vasco Granja mantém um programa regular sobre cinema de animação na RTP, que teve mais de 1000 emissões e divulgou sistematicamente as grandes escolas internacionais do género. Estava reformado desde 1990.


Carlos Pessoa (PÚBLICO) - 4 de Maio de 2009


Esta é a notícia que o Jornal Público publicou sobre a morte do Vasco Granja. É inevitável não sentir pena pelo desaparecimento de uma pessoa que nos foi tão querida enquanto crianças e que se mantém viva na nossa memória. Quem não se lembra dos programas do Vasco Granja, que nos punha a ver desenhos animados checos, feitos de plasticina, com uma história que não compreendíamos e com umas letras esquisitas que ninguém conseguia ler...? Quem não aguentava firmemente todas aquelas "bonecadas" à espera da Pantera Cor-de-Rosa? Esse sim, o nosso herói, por quem aguardavamos ansiosamente...

Vasco Granja estará para sempre ligado à Pantera Cor-de-Rosa e a toda a banda desenhada televisiva. Vasco Granja perdurará na nossa memória por isso. Vasco Granja será sempre o nosso amigo da televisão.




Até um dia, Sr. Pantera Cor-de-Rosa.