Caríssimos Malandros, antes de iniciar esta crónica gostaria de vos alertar que, para além de toda a ironia e sarcasmo que possa utilizar na forma como escrevo, este assunto é de real importância. Quem sabe se, dito de uma forma mais jocosa, não se evitem mais confusões e quem sabe também se isto não chega onde deverá chegar, por forma a que se esclareçam, de vez, todas as dúvidas. Posto isto, entremos no Metro do Porto para mais uma viagem pelo mundo da Malandragem…
Sou utente assídua do Metro do Porto, sou daquelas pessoas que tem passe e anda de Metro e de Autocarro e tudo! Tenho visto já há algum tempo que nas Estações do Metro, nalgumas delas, têm andado fiscais a controlar à saída do Metro quem tem título de transporte válido. Isso nunca foi um problema para mim pois desde sempre cumpri com o que era pedido – ter atenção às zonas e à validação, pelo menos. Portanto, sempre que via os fiscais eu ficava descansada, a mim não poderiam fazer nada, eu estava “legal”. Reparei, com alguma incredulidade (mas compreensão também, infelizmente) que na época do Natal, principalmente na Estação das Sete Bicas, que serve o NorteShopping, os fiscais eram às dezenas, a controlar quem saía e sim, vi alguns (muitos) utilizadores, na maior parte deles adolescentes e jovens, a terem problemas… mas era de prever…
Aqui há duas semanas, mais ou menos, contaram-me a história mais caricata alguma vez passada no Metro, infelizmente com uma pessoa da minha família e esta semana presenciei à mesma situação. Com a minha prima, o que aconteceu foi que uma amiga dela resolveu ir esperá-la ao cais, quando ela chegasse de Metro à Estação do Bolhão. Essa amiga dela, que veio de Paços de Ferreira de camioneta, fez horas no Plaza e resolveu meter-se no elevador e descer para a esperar. Subiram as duas pelas escadas rolantes e à saída quem estava? Os fiscais, pois claro! A minha prima apresentou o passe dela e a amiga, que só tinha ido ter com ela ao cais, por não ter título de transporte, foi multada em 90€! Mais, não só foi multada como os senhores fiscais resolveram parodiar com o nome dela, pouco comum, com o facto de ela ter vindo de Paços de Ferreira pois essa equipa jogava naquele dia no Dragão com o Porto e, enquanto ela explicava que tinha vindo de onde viera, que tinha ido comprar umas bolachas e esteve a fazer horas para ir ter com a amiga, os fiscais ainda perguntaram se ela não teria uma bolachinha para eles, que estavam cheios de fome… E lá veio a miúda com uma multa de 90€ para pagar por ter ido esperar a amiga ao Cais…
No início desta semana tive necessidade de entrar na Estação do Campo 24 de Agosto. Lá estava um batalhão de fiscais a controlar quem saía quando reparámos, depois de termos validado os nossos títulos, que se estava a passar atrás de nós exactamente o mesmo que tinha acontecido à minha prima e à amiga. Um rapaz desceu até ao cais para ir ter com uma pessoa e à saída lá o “apanharam”. Quando reparámos no que se estava a passar, e porque o meu primo tinha visto o rapaz no café a fazer horas, como ele, abeirámo-nos dos fiscais para lhes dizer isso, mas a situação pareceu “controlada”, o casal lá foi embora sem multa nenhuma. Talvez porque algum dos fiscais tivesse identificado o rapaz, o tivesse visto a entrar e a sair pouco depois acompanhado e tenha ido em defesa dele junto daquele batalhão de gentinha.
Conversa puxa conversa e a minha tia acabou por dizer que se tinha passado uma situação idêntica com a filha e que não compreendia o porquê da multa passada. Quando as coisas começaram a “aquecer” um bocadinho eu disse que não havia, em parte nenhuma, nada que dissesse que não era permitida a entrada e permanência na gare ou cais de embarque. E disse uma “senhora que tinha uma gravata com logótipos do Metro”, apontando para o chão onde está um aviso que é obrigatório validar o andante que a informação estava ali e que era obrigatório!
Um outro “senhor de gravata com logótipo do Metro” disse com o seu ar importante, com as mãos atrás das costas a segurar o precioso bloco onde escrevem as “cartas de amor” deles, que estava no Artigo 28 e que era só ler. A “senhora de gravata com logótipos do Metro” disse, apoiada numa das máquinas de validação e apontando para a máquina de compra de títulos, que “era só uma questão de perder cinco minutos e ler o que lá dizia”. E era obrigatório ter um título validado a partir daquela linha de máquinas de validação. Ah, também disse o outro “senhor” que embora as Estações fossem abertas era obrigatório validar e que tinham evitado aqui no Porto a utilização de torniquetes “para evitar o congestionamento”. A Isabel passou-se! “Não colocar torniquetes para evitar o congestionamento? Desculpe lá, mas se houvesse as pessoas sabiam como as coisas funcionavam… e em Lisboa há torniquetes, as pessoas aprenderam a viver com eles!”. Pergunto eu, que conheço algumas estações de Metro de Lisboa – Congestionamento? A Estação do Cais do Sodré tem mais gente que pessoas e tem torniquetes! E o Metro de Londres (como se o pudéssemos comparar com o nosso Metrinho)? Bem, começaram-me a subir os calores e eu fui dizendo para irmos embora, porque já me estava a zangar… Começamos a descer o segundo lanço de escadas rolantes que dão acesso ao cais quando vejo a surgir, no horizonte, lá em baixo… uma máquina de validação. Outra. Esperem lá… uma máquina de validação? Mas então a “senhora” não tinha dito que a partir daquela linha de máquinas era obrigatório ter um título validado? Então o que estava aquela caixinha amarela a fazer ali? Hmm… estranho… tive vontade de voltar atrás para perguntar mas já estava demasiado irritada e já só pensávamos no Artigo 28.
Em duas estações onde estivemos depois deste acontecimento, procurámos o Artigo 28. Havia dois painéis informativos com códigos de utilização. Um tinha 15 artigos, o outro 17. E o 28? Nós queremos é o 28! Mas não o vemos em parte alguma! Procuramos na Internet, na página do Metro do Porto e nada; a minha prima (a quem entretanto tínhamos ligado e contado o que se tinha passado…) perguntou na Estação do Campo 24 de Agosto à “senhora” que precisava de ver o Artigo 28, onde o poderia encontar? e ela apontou para os painéis e mandou-a ler… Ora portanto, Artigo 28 nada!
Ainda nesse dia, no noticiário da tarde, deu uma reportagem sobre as multas no Metro. São tantos os infelizes apanhados… mas no meio da peça, veio um senhor responsável pelo Metro do Porto lembrar que é obrigatório ter um “título válido para o embarque”. A-HA! Apanhado! Com que então um título para embarque? Fui ver ao dicionário e embarque também quer dizer lugar onde se embarca, ou seja, cais. Bolas! Já não dá para pegar por aí, uma vez que a língua portuguesa tem destas coisas, tem muitos significados e nós às vezes só conhecemos um deles…
Mas como “quem tem boca vai a Roma” e “quem tem amigos não morre na cadeia” lá conseguimos descobrir o Artigo 28. É verdade, ele existe!!! Foi publicado no Diário da República de 4 de Julho de 2006!!! Então não sabiam, seus malandros ignorantes…? Pois claro! E o Diário da República é de leitura diária obrigatória! Por favor, uma Lei aprovada em 2006 e ninguém tinha conhecimento!? Quer dizer, isto só faz de todos nós uns ignorantes que nem merecem andar num transporte sobre o qual não conhecem toda a legislação…
Por isso, se quiserem utilizar Estações como a de S. Bento ou a do Campo 24 de Agosto para atravessarem de um lado para o outro da rua para escapar ao trânsito, semáforos e passadeiras e até a chuva, o frio, o vento, o sol, o calor…, se quiserem descer para tomar um cafezinho, aproveitar que ali está menos gente e é mais rápido, ir num instante levantar dinheiro à Caixa Multibanco (que a Estação do Campo 24 de Agosto tem) ou levar a avó ou o neto ao Metro, não se esqueçam de validar! É que é obrigatório! E não interessa se vão utilizar o Metro ou não, isso não interessa nada! O que interessa é que o melhor é tirar o passe ou comprar umas viagens e validar. Sempre! Não vá os “senhores de gravatas com logótipos do Metro” andarem por lá… Não se esqueçam: passagens, cafés, levantar dinheiro e outras coisas que tais, só para quem título válido. Se for para levar a avó ou o neto, é melhor deixá-lo pela Estação à solta e eles que procurem e encontrem o caminho deles, homessa!
Até no Metro… entristece-me ver que as coisas não andam porque as pessoas não querem que elas andem… Se é obrigatório validar, os fiscais deveriam chamar as pessoas à atenção para isso, mas fazê-lo à entrada e não à saída, como fazem. É claro que isto só pode ser encarado como “caça à multa” porque o dever de informar os utentes passa-lhes ao lado. Ninguém sabe desta Lei, deste Artigo 28. Que lhes custa esclarecer as pessoas? Que custa à Metro do Porto informar as pessoas destas situações? Custa muito menos dinheiro do que aquele que eles conseguem angariar em multas, a 90€ cada uma…
Que tristeza… que país de mentalidade pequenina e tacanha este em que vivemos. Que gente miudinha e prepotente põem à frente das máquinas de validação a fazer o papel do mau e do “eu sou muito melhor e muito mais poderoso do que tu!” Que pena eu tive de não ter voltado atrás e de não ter perguntado onde estava o Artigo 28 e o que dizia e o que fazia a máquina de validação fora da “linha” de entrada. Sempre gostaria de ver como se desenrascavam com as repostas…
Se quiserem ser menos Malandros, eu tenho a legislação. Posso enviar… pelo menos já ficam a saber mais alguma coisinha, como eu…
Malandros que andais de Metro, de autocarro, de carro, de bicicleta, a pé, de trotineta ou de carrinho de rolamentos tenham atenção aos obstáculos. É que às vezes, por desconhecermos, zelar pelos nossos interesses ou pelos dos outros, pode ficar-nos caro. Pelo menos 90€