"O caminho faz-se caminhando", dizem. O Caminho de Santiago faz-se, também, de outra maneira...
Fui pela segunda vez fazer o Caminho de Santiago. Fiz a primeira vez há 2 anos e voltei a fazê-lo no início de Setembro. Não o fiz sozinha, não no ponto de vista de sermos mais 3 pessoas, mas fi-lo sozinha no ponto de vista do caminhar, do fazer o Caminho.
Saímos de Rubiães (Paredes de Coura) e à chegada de Tui os meus pés começavam a dar sinais de desconforto dentro das botas. As minhas botas, que me acompanham há pelo menos 8 anos, que viajaram imenso comigo, que fizeram o Caminho há 2 anos e que já contam com centenas de km em cima das caminhadas que fiz... No segundo dia, as bolhas, as dores horríveis, as primeiras lágrimas de dor insuportável, a primeira paragem. Pior do que as dores que as bolhas causam, é a dor de pensar que desiludimos os que estão connosco, é a dor do fracasso, do possível abandono. No terceiro dia chovia, e nesse dia, não sabia eu, mas estava destinado chegar ao fim, apesar de todas as dificuldades e com todas as dores e ainda a chuva.
Fui pela segunda vez fazer o Caminho de Santiago. Fiz a primeira vez há 2 anos e voltei a fazê-lo no início de Setembro. Não o fiz sozinha, não no ponto de vista de sermos mais 3 pessoas, mas fi-lo sozinha no ponto de vista do caminhar, do fazer o Caminho.
Saímos de Rubiães (Paredes de Coura) e à chegada de Tui os meus pés começavam a dar sinais de desconforto dentro das botas. As minhas botas, que me acompanham há pelo menos 8 anos, que viajaram imenso comigo, que fizeram o Caminho há 2 anos e que já contam com centenas de km em cima das caminhadas que fiz... No segundo dia, as bolhas, as dores horríveis, as primeiras lágrimas de dor insuportável, a primeira paragem. Pior do que as dores que as bolhas causam, é a dor de pensar que desiludimos os que estão connosco, é a dor do fracasso, do possível abandono. No terceiro dia chovia, e nesse dia, não sabia eu, mas estava destinado chegar ao fim, apesar de todas as dificuldades e com todas as dores e ainda a chuva.
Fiz duas etapas de chinelos de dedo. Era o único calçado, para além das botas, que tinha. Os pés não entravam nas botas, por isso os chinelos, transformados em sandálias à pressão, foram os meus companheiros de caminho durante quase 60 km em 2 dias. Dei por mim a pensar no ridículo da situação: enquanto os outros tentavam manter os pés secos, eu tentava mantê-los molhados. Enquanto eles se afastavam das poças de água, eu entrava nelas e lavava os pés nas goteiras das casas. Tinha que manter os pés molhados nos chinelos, primeiro para tirar as areias que ficavam nos pés, depois para evitar as queimaduras que os chinelos poderiam fazer. Mas tudo em vão.
Nesta altura, as bolhas infectaram e os chinelos feriram-me os dedos. Embora cobertos com adesivo, a chuva e o caminho irregular acabaram por mover os adesivos e o inevitável aconteceu. Os pés já não podiam calçar os chinelos. E incharam devido ao esforço exercido sobre os dedos. E os músculos cederam porque o apoio não foi bem feito.
Penei. Penei ainda mais porque o meu ritmo não era igual aos dos outros, bem pelo contrário, era muito mais lento. Penei porque fiz o Caminho sozinha, porque psicologicamente não estava bem, porque as dores me afastavam todos os bons pensamentos que poderia ter, porque não usufruí do Caminho como deveria, porque a minha mente estava ali presa na dor e não a pensar em coisas bem mais importantes e com os olhos desviados de coisas bem mais bonitas do que os meus pés inchados e feridos. Penei muito quando os que estavam comigo não tinham, ou não queriam ter, a percepção do quanto eu não estava bem, da falta de cuidado que senti da parte deles, cuidado esse manifestado pelos grupos de peregrinos que íamos encontrando pelo Caminho e com quem partilhávamos os Albergues. Todos os dias eu achava que não ia conseguir. A 6 km de Santiago de Compostela, em Milladoiro, achei mesmo que não saía dali. A única maneira que tinha de caminhar era a arrastar os pés, uma vez que os músculos das pernas estavam presos.
Cheguei a Santiago de Compostela e na Praça do Obradoiro, mesmo em frente à Catedral, as minhas dores passaram. Foi a melhor sensação que tive em dias. Subi as escadas da Catedral como quem chega de carro para a visitar. Naquele momento só agradeci pelo facto de alguém me ter ensinado e me ter dado a força necessária para seguir em frente, apesar das adversidades. Foi uma dura prova, mas provei, senão a alguém, pelo menos a mim mesma, que quando somos obstinados, conseguimos.
Passadas duas semanas ainda tenho marcas profundas do Caminho. As memórias dolorosas, as feridas e as sequelas do esforço nos pés, a consciência tranquila de ter conseguido chegar a Santiago.
Da próxima vez, será melhor.
P.S. – Malandros, o Caminho de Santiago é uma experiência única, pessoal, inexplicável. Aconselho a todos, quer se vá em passeio, quer se vá à procura de respostas, à procura de alguma tranquilidade e de tempo para ordenar as ideias, que tantas vezes nos falta aqui ou é perturbado pelo corre-corre do quotidiano. Façam-no.
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